Imagem capa - Investimento Anjo por Geraldo Neto
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Investidores-anjo despontam no Brasil atrás de um novo ‘Facebook’

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O investidor-anjo Cássio Spina: experiência como empresário ajuda a garimpar oportunidades em ‘startups’
De Justin Bieber a Bono Vox, a lista de artistas que se transformam em investidores-anjos – como são chamadas as pessoas físicas que colocam dinheiro em empresas iniciantes com alto potencial de crescimento – aumenta a cada ano. E também no Brasil esse tipo de investimento, se não virou moda, já chama a atenção de famosos – caso dos apresentadores Luciano Huck e Angélica, sócios de vários empreendimentos novatos – e de gente pouco familiarizada com o nicho. Essa, entretanto, pode ser uma atração perigosa a quem não é do ramo.

Apostas do gênero são mais complexas e arriscadas do que investimentos tradicionais. As premissas básicas pressupõem que as chances de perder tudo ocorrem nas mesmas proporções do potencial de retorno. E o lucro, se houver, vai demorar vários anos para ser realizado.

Os investidores-anjos adquirem participações minoritárias em empreendimentos iniciantes, chamados de ‘startups’, para ganhar com o desenvolvimento do negócio. Eles estão na origem, por exemplo, da maior parte dos atuais gigantes da internet, como Google, Amazon e eBay. Além disso, histórias, como a do vocalista do U2, Bono Vox, que viu seu aporte de US$ 90 milhões no Facebook se transformar em US$ 1 bilhão em três anos, alimentam o mito de que apoiar ideias inovadoras possa ser um investimento dos sonhos.

Na realidade dos negócios, entretanto, o mito deve ser visto com cautela. Casos como os da rede social devem ser encarados como exceções e não a regra. Prova disso é que 40% das ‘startups’ nos EUA fecham sem dar retorno nenhum, de acordo com o “Centre for Venture Research da Universidade de New Hampshire”. “Aqui a gente não tem estatística disso, mas de cada cinco negócios investidos, um ou dois vão falir, dois vão ter um ganho modesto e apenas um, talvez dois, vai dar um retorno muito alto”, afirma Cássio Spina, investidor-anjo e diretor da organização de fomento Anjos do Brasil.

O poder de atração das ‘startups’ tem estimulado a multiplicação dos investidores-anjos. Só nos EUA, um levantamento do “Centre for Venture Research” indica a existência de mais de 265 mil indivíduos. Em 2010, o grupo todo movimentou US$ 20 bilhões, que foram aplicados em 62 mil novos negócios.

Por aqui, a Anjos do Brasil contabiliza a existência de 5,5 mil anjos. Em 2001, quando foi formada a Gávea Angels, a primeira rede do gênero no país, a comunidade somava apenas poucas dezenas de integrantes. Segundo uma pesquisa do Sebrae, o país tem potencial para alcançar um conjunto de até 200 mil investidores do gênero.

Como investem em empresas iniciantes, algumas ainda em fase de implantação, os anjos costumam aportar valores baixos para os padrões do private equity e venture capital, entre R$ 50 mil a R$ 500 mil para adquirir participações que variam de 20% a 40% da ‘startup’. “Ser anjo pressupõe ser minoritário. Isso porque o empreendedor tem que se manter motivado para desenvolver o modelo”, afirma Spina.

O capital financeiro é apenas uma parte do investimento. Para diminuir riscos e apontar atalhos ao sucesso, o anjo, em geral, tem participação ativa no desenvolvimento do negócio. “O anjo é mais ‘mão na massa’ comparado ao venture capital, por exemplo. Participa do dia a dia do negócio. É também um mentor, que passa aos empreendedores sua experiência de desenvolver um empreendimento”, explica Marcelo Amorim, da rede de anjos Jacard, do Rio de Janeiro.

Como atua no desenvolvimento da empresa, um anjo típico costuma ter uma bagagem empreendedora. É o caso de Cássio Spina, que fundou sua primeira empresa de software, a Intersys, aos 19 anos, e seis anos mais tarde, criou a Trellis, fabricante de equipamentos de comunicação de dados, na qual permaneceu por quase duas décadas. Em 2010, com o dinheiro da venda de sua participação no último empreendimento, pôde colocar em prática seu plano de investir em ‘startups’. Atualmente tem participação em cinco negócios, entre os quais o ZoeMob, um serviço que permite aos pais monitorar localização e conteúdo de smartphones e tablets dos filhos.

Embora estime que uma ‘startup’ bem-sucedida possa trazer um retorno de até 30 vezes o valor investido, Spina é pragmático em relação ao nicho. “O ideal é separar entre 5% e, no máximo, 15% do patrimônio para participações em negócios iniciantes”, recomenda o investidor. “No meu caso, mantenho a maior parte dos recursos em uma carteira diversificada, de títulos públicos e fundos a ações. O investidor não deve se complicar, se acabar perdendo o dinheiro que colocou na empresa”.

Diminuir os riscos de um investimento depende em boa parte dos próprios anjos. Já na seleção de candidatos, um filtro rigoroso define o sucesso ou o fracasso. Ao contrário do que possa acreditar o senso comum, encontrar o projeto certo é uma maratona. “A média do mercado mostra que para cada aporte há 100 propostas apresentadas”, afirma Robert Binder, coordenador do Comitê de Empreendedorismo, Inovação e Capital Semente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP). “O investidor tem de olhar se o modelo de negócios tem escala, qual o tamanho do mercado, o grau de inovação, quais as barreiras para futuros competidores e, principalmente, se os sócios serão capazes de levar o projeto adiante. A avaliação do perfil dos empreendedores é fundamental, porque se o relacionamento não der certo tudo pode dar errado”, diz Binder.

Atuar em grupo também contribui para agregar valor ao negócio, diluir os riscos e selecionar melhor as propostas. Por isso, anjos costumam formar as chamadas redes, que congregam investidores de diversos perfis, interessados em apoiar ‘startups’.

Na Vitória Anjos, do Espírito Santo, médicos, engenheiros, executivos e empresários se uniram para potencializar suas apostas. “Somos 13 pessoas com experiências distintas. Isso é importante porque nos possibilita investir em conjunto e em áreas que não conhecemos”, explica Pedro Gualandi, dono da empresa Infopar e coordenador da rede capixaba. “Minha filosofia é de diversificar. Estou olhando investimentos nas áreas de educação e biomédica e, para isso, aproveito a expertise dos colegas”, explica o presidente da Gavea Angels, Antonio Botelho.

O crescimento do número de redes espalhadas pelo Brasil incentivou a criação de uma associação do segmento. “Estamos nos articulando com as principais redes e ainda em abril devemos lançar a entidade”, diz Botelho. A ideia é incentivar a criação de uma cultura de investimento anjo no país e até possibilitar investimentos conjuntos entre as redes de vários estados.